12 minutos com Nelton Friedrich | A reputação do Brasil durante a pandemia

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O que será que o mundo está pensando sobre o Brasil e sobre o governo brasileiro? Da Índia aos Estados Unidos, do Reino Unido à França. Como estamos sendo vistos? Enfim, é preciso sabermos um pouco o que estão pensando sobre nós neste momento da tragédia do coronavírus.

Quero fazer uma reflexão sobre como o mundo está olhando o Brasil e como é que nós brasileiros estamos figurando nesta avaliação exatamente em função da realidade que combina crises: a crise sanitária, a crise econômica e como se não houvesse crise suficiente, a crise política.

E compreendam o quanto é fundamental a gente entender o valor de um jornal britânico como o “The Guardian“, que trouxe em manchete em recente: “Bolsonaro está arrastando o Brasil para a calamidade”. Trata-se de um periódico que existe desde 1936, com mais de duzentos mil exemplares impressos e mais de 42 milhões de leitores. Em outra manchete, “Bolsonaro é um dos quatro líderes mundiais que ainda subestima a ameaça do coronavírus à saúde pública”. Podemos concluir que o que está acontecendo no Brasil é surreal, para não dizer até infantil.

Mas se nós formos para o outro jornal britânico de importância reconhecida mundialmente o “The Financial Times“, fundado em 1.888 e é considerado um dos porta-vozes do sistema financeiro e dos grandes rentistas. No mundo todo este periódico possui mais de dois milhões de assinantes e  seu site mais de  quatro milhões e meio de acessos, circulando e estando presente de maneira muito marcante em mais de 23 países, porém com destaque nos Estados Unidos da América e no Reino Unido.

Para se ter uma ideia, o “The Financial Times” possui em seu quadro de funcionários mais de 480 jornalistas. Esse influente veículo em editorial disse com todas as letras que no Brasil tudo se encaminha para o impeachment do presidente. A manchete dizia em letras garrafais: “A autodestruição do Trump tropical“.  No texto, uma crítica muito dura às atitudes do presidente do Brasil, onde afirmam que ele estaria trilhando o caminho em direção ao impeachment, e que este estaria determinado pelo rol de horrores presidenciais frente à pandemia.

Bolsonaro é comparado ao presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, por vários motivos, mas principalmente pelo alinhamento político e características semelhantes, tais como as falas polêmicas e o uso das redes sociais. O conteúdo da matéria é tão pesado que classifica as múltiplas crises brasileiras como assustadoras e com potencial de promover a destruição do país.

Evoluindo em nossa análise e partindo para outro periódico que igualmente possui uma presença muito expressiva no globo, vamos de encontro ao jornal chamado “The Economist“. Esse também é um “jovem”, sua fundação é datada no ano de 1.843 e, além de ser considerado a publicação porta-voz do liberalismo clássico, possui muita influência na vida econômica e inclusive na vida política porque a maior parte dos políticos tanto dos Estados Unidos da América, como no Reino Unido o acompanham. Este jornal, o “The Economist” se orgulha de carregar o slogan, “nós somos o extremo centro”, se é que pode existir tal caracterização. 

E foi este periódico, com essas características, que cravou de forma muito clara em manchete, “Jair Bolsonaro se isola na contramão“. Na matéria há um apanhado para explicar que o isolamento do presidente, traduzido por seus atos, pode significar o começo do fim do seu mandato e que ao minar os esforços de seu próprio governo para combater o coronavírus, haverá, possivelmente, problemas ao povo e à nação. Portanto, ratifica a mensagem de problemas na condução do país e possibilidade concreta de impeachment.

Ilustração veiculada no jornal “The Economist”

O “Le Monde”, da França, que é um dos mais tradicionais jornais do mundo e portador de grande respeito, também dispara em manchete:  “O Brasil está desarmado diante do colapso sanitário“. Em seu texto,  é destacado que enquanto uma parte do mundo inicia sua saída da quarentena, a epidemia de Covid-19 está em plena explosão no Brasil.

O “Les Échos”, também francês, destaca a “Consternação ao Brasil após a demissão do Ministro da Saúde“. No texto, comenta que em plena epidemia a demissão de Nelson Teich, o segundo ministro da saúde em menos de um mês, cria consternação. Afinal, a confusão criada pelo presidente Jair Bolsonaro, que é contra a quarentena, é inigualável no planeta. 

O “New York Times” destacou em recente matéria com a manchete “Bolsonaro, isolado e desafiador, descarta ameaça do coronavírus para o Brasil“, onde esclarece que o presidente Jair Bolsonaro, além de chamar o coronavírus de uma gripezinha, é o único grande líder mundial questionando os méritos das medidas de isolamento para combater a pandemia. 

O “The Washington Post”, outro importante jornal norte-americano, aponta: “Bolsonaro é o líder do negacionismo mundial ao coronavírus”.

No “El País” da Espanha: “Atitude imprudente e irresponsável do líder do maior país da américa latina ameaça causar inúmeras mortes“. 

E aí se nós seguirmos, vamos verificar o “The Times of India” por exemplo. Em posição análoga aos demais, aponta: “O presidente do brasil tira selfies e aplaude manifestantes apesar do risco da pandemia“. 

Na solar e distante Austrália, há outro periódico com grande presença na mídia chamado “The Sydney Morning Herald”, que diz, “Bolsonaro joga com a vida e a morte em meio a pandemia“. 

E o “All Jazeera” representando as grandes publicações do oriente médio, recentemente também divulgou que, pelo menos um líder mundial seguiu as recomendações de Donald Trump ao promover o uso de drogas de eficácia não comprovadas como solução à pandemia. (Adivinhou quem?)

Eu poderia seguir adiante, pois só para esse texto separei pelo menos mais de trinta outras matérias, inclusive da Argentina e do Paraguai, mas o objetivo até aqui foi cumprido. Queria essa introdução para dizer que é lamentável para nós brasileiros que nessas alturas da pandemia estamos sendo objeto de uma verdadeira ridicularização internacional.

Eu procuro refletir e imaginar o que significa, a essa altura, compreendermos a nossa reputação lá fora, há quantas andam? Afinal, observamos que todos os países que possuem o mínimo de liberdade de expressão se manifestaram na mesma linha, no mesmo sentido e na mesma tonalidade. Ou seja, atribuindo claramente essa situação desesperadora que o Brasil está nas mãos desta administração.

Chegamos a tal ponto que o presidente do Paraguai acaba de se manifestar apontando o Brasil como uma grande ameaça. Afinal de contas, o Paraguai fez o seu dever de casa.

Confesso que tenho um grande amigo vivendo lá, seus filhos todos moram aqui no Brasil, ele está há 60 dias sem poder sair do Paraguai. Reparem… ele é uma pessoa que trabalha lá, que possui formação superior, possui uma atuação profissional forte na área da agropecuária e no entanto não consegue atravessar as bordas nem para visitar a família.

Vamos meditar um pouco sobre o que aconteceu na Argentina. Repare, em uma atitude proativa, articulada e organizada do Presidente da República, que se colocou à frente da condução desta pandemia em seu país, mobilizando, envolvendo e pondo a sua própria reputação em jogo. Tomou uma série de decisões, fazendo com que houvesse uma convergência de forças, convergindo forças nacionais e promovendo uma coalizão Nacional, com “N” maiúsculo, para poder diminuir os efeitos da pandemia.

Pois bem… a Argentina registra em todo o seu território apenas 373 casos letais da Covid-19. Já na região do ABC Paulista, apenas três municípios registram mais mortes do que toda a Argentina com 40 milhões de habitantes. Se não bastasse a incompetência, a cada dois ou três dias é criada uma nova crise dentro da crise.

Aí vem o presidente e contradiz o seu próprio governo, negando as propostas de controle da doença. É um mundo de confusão.

Os próprios brasileiros sentem-se confusos. Afinal, o presidente está dizendo que “é uma gripezinha”, que, “com um histórico de atleta não terá problema”, e que “somos diferenciados pois mergulhamos no esgoto e nada acontece”. 

Posso dizer com sinceridade e com consciência muito tranquila mesmo. Posso dizer com o espírito leve, sem factoides e sem robôs com objetivo de fazer a cabeça desse ou daquele outro.  Será que nós estamos sendo muito pacientes com esse quadro?

Notem, uma pessoa leva uma vida inteira para consolidar sua reputação, imaginem a reputação de um país, de uma nação. Isso se constrói com muita dificuldade. Quando você consegue quebrar uma reputação, ainda mais sustentando uma atitude vergonhosa, que carrega um componente que viola o próprio conceito de humanidade, isso é aterrador e permanente. Para superar isso serão gerações de trabalho árduo.

Portanto,  a situação que estamos vivendo é São três crises:  a sanitária, a econômica e a a política. Mas esta última acaba atrapalhando e se confundindo as outras duas. Afinal, a crise política gera confusão e até certo ponto uma espécie de paralisia do Estado e todo seu aparato administrativo.

Por tudo o que foi dito aqui, nós estamos nesse momento sendo colocados abaixo da crítica. E aí eu pergunto, isso não é revoltante? (…) Mas é claro que, é!

Mas o pior não é a vergonha, creio que pior do que a vergonha de vermos todos estes grandes jornais do mundo veiculando quase que diariamente, ou ao menos semanalmente todas estas disparidades sobre o nosso país, sobre o líder máximo da nossa república, é assistirmos o desmonte do sentimento do povo em relação ao seu próprio país.

Estamos testemunhando o Paraguai (não que haja demérito no Paraguai), sendo obrigado a manter suas fronteiras fechadas com o Brasil para proteger a sua população.

Aí me pergunto, “será que deveríamos estar envolvidos numa crise política”? Agora, justo neste momento? Precisamos meditar muito sobre isso.

O Brasil não merece o que está acontecendo. A maior vergonha não é o que estão dizendo lá fora sobre nós. Nossa maior vergonha está diante do espelho quando observamos a tremenda lástima que vivemos enquanto nação.

Mas como digo… tudo tem um começo, tem um meio e um fim. Garanto que será muito dolorida essa trajetória e essa caminhada. Finalizo que ao final é preciso responsabilizar os responsáveis… Pensemos nisso.

 

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