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terça-feira, 20, abril, 2021 | 02:31:02 PM

A escavação

Em 1926, um aristocrático casal inglês, Frank e Edith Pretty, adquiriu uma propriedade rural com estranhas formações no relevo denominada Sutton Hoo, no sul da Inglaterra. Alguns anos depois da morte de Frank (1934) e às vésperas do início da Segunda Grande Guerra, a então viúva resolveu chamar um arqueólogo autodidata, Basil Brown, para realizar escavações em suas terras, com o intuito de descobrir o que havia debaixo do solo. Um ano depois (1939), uma das mais importantes descobertas arqueológicas do Reino Unido foi realizada: uma embarcação funerária anglo-saxônica com mais 25 metros de comprimento, além de outras 263 peças de altíssimo valor. 

Esta é a premissa do filme “A Escavação”, disponível no Netflix, dirigido por Simon Stone e baseado no livro homônimo de John Preston, de 2007. A sinopse remete a uma obra baseada em fatos reais e que tem a arqueologia como mote.

Porém, as escolhas criativas da direção entregam mais camadas do que apenas a descoberta deste tesouro. Com uma fotografia sensacional, elenco inspirado e montagem idem, “A Escavação” mescla cenas do processo desta busca arqueológica com situações que denotam o iminente início da guerra.

São duas histórias que se complementam e que se não soubéssemos se tratar da mais lucrativa descoberta arqueológica inglesa (havia muito ouro nas câmaras do navio), ficaríamos apreensivos com a possibilidade de que toda aquela riqueza arqueológica pudesse ser destruída pela guerra. Aliás, nos créditos finais, sabemos de que forma aconteceu a proteção dos artefatos contra os ataques alemães. Realmente impressionante…

Além da belíssima fotografia, destaque para a atuação dos atores principais. Ralph Fiennes entrega mais um trabalho na medida na pele do correto e resignado Basil Brown, bem como Carey Mulligan – envelhecida para o papel por maquiagem, pois seus 35 anos a colocavam distante dos 57 anos que a personagem possuía na ocasião -, no papel da determinada Edith Pretty. Se os dois são ótimos dialogando, também estão formidáveis nas conexões silenciosas. Muito do que ambos transmitem não é dito. Essa subliminaridade é nuance que só atores competentes alcançam.

Já a personagem de Lily James traz um frescor juvenil (até demais) para a classuda trama. Inspirada na arqueóloga Peggy Piggot (tia do autor do livro), na trama vive um casamento estranho com o personagem de Ben Chaplin, o arqueólogo Stuart Piggot. A estranheza aqui não é tanto pela falta de interesse do maduro marido pela jovem esposa, mas pela falta de “match” do par. Coloquei minha memória cinematográfica para jogo e confirmei na internet a resposta para a falta de afinidade na tela: eles foram pai e filha no belíssimo clássico da Disney, Cinderela, de 2015 (sim… pode ler esta frase ao som de Creep, de Radiohead… faz muito sentido. Kkkk). Aliás, confesso que o arco de James (sempre correta em seus personagens, diga-se de passagem) teve mais atenção do que merecia. O filme se sairia bem também sem suas desventuras amorosas.

Então que, entre casais improváveis, arqueólogos com formação respeitável e pinta de vilão e iminência da guerra e da morte, “A Escavação” é entretenimento de qualidade, sem grandes plots, mas com charme inglês, ótima luz e reparação histórica.

Afinal, o personagem de Ralph Fiennes não teve seu nome incluído nas descobertas da embarcação anglo-saxônica em terras inglesas por décadas. E fica evidente a preocupação da personagem de Mulligan em trazer à luz o protagonismo de Brown. Algo que não aconteceu em vida para o modesto arqueólogo autodidata. Apenas os “arqueólogos com formação respeitável e pinta de vilão” foram reconhecidos na ocasião, infelizmente.

Enfim, trata-se de uma boa película, para apreciadores de acontecimentos históricos, correções de injustiças e atuações consistentes. 

Recomendo.

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