16.8 C
Curitiba
domingo, 26, setembro, 2021 | 09:57:22 PM

Cafarnaum

Dilacerante… Este seria o adjetivo, se tivesse que resumir em uma palavra o filme “Cafarnaum” da diretora libanesa Nadine Labaki.

E faço uma ressalva aqui. Apesar de tratar de um tema pesado, a miséria infantil, Labaki não resvala na pieguice ou no melodrama gratuito.

O que temos na tela é um drama de qualidade e contundente, que mostra a vida do pequeno Zain, em meio a uma família grande e disfuncional e em situação de extrema pobreza, em uma favela de Beirute.

O filme tem início com cenas em um tribunal nas quais tomamos conhecimento que nosso protagonista, preso por ter cometido algum delito grave – que vamos tomar conhecimento ao longo da história -, está processando seus pais por ter nascido.

Com esta premissa, não há como não desgrudar os olhos para assistir ao desenrolar da trama. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2019 e vencedor do prêmio do júri do Festival de Cannes do ano anterior, “Cafarnaum” seduz pelo incômodo. Afinal, não há filtros para o sofrimento de Zain, de aproximadamente doze anos, que trabalha muito em uma mercearia, não brinca, não vai à escola e é usado pelos pais para comprar drogas que serão traficadas pelo seu irmão mais velho na prisão.

A película chega a ter uma pegada de documentário, tamanha realidade na tela. As locações, figurinos e sonoplastia foram pensados para causar estranhamento e desconforto. Tudo é cru, em tons desbotados, sujos ou decadentes, enquanto os sons são estridentes e desagradáveis. 

Se não bastasse esse cuidado, o ator principal, Zain Al Rafaee, é competência pura. Esse menino sírio que vivia em uma favela do Líbano até pouco antes de estrelar o longa, expressa dor e desalento com tamanha intensidade, que é quase impossível não se emocionar. Fica nítida a confiança que a diretora possui no trabalho de Rafaee, visto que os ângulos sobre o menino são quase sempre fechados, em close, enaltecendo as convincentes expressões faciais do pequeno ator. Destaque para o olhar perdido e desesperançado.

Enfim, é um trabalho primoroso, pois tange questões de difícil degustação, tais como o abuso infantil, a miséria e a precária situação dos refugiados de uma maneira racional e convincente. O filme também tem o mérito de abordar como a cultura patriarcal e misógina, ainda tão presente no Líbano, pode ser devastadora. Devido a esta miscelânea de temas tratados, o filme merece todas as honrarias que alcançou na ocasião de seu lançamento, ainda que não tenham sido unânimes. Algumas vozes em Cannes o classificaram como “pornô-miséria”. Outros falaram em “espetacularização” do sofrimento infantil.

De qualquer maneira, ninguém passa incólume por “Cafarnaum”. É mais que um filme. É uma experiência catalisadora. Eu, por exemplo, senti um alívio por não ter nascido no Oriente. A despeito de todas as nossas mazelas sociais, culturais e de gênero, jamais seria trocada por meia dúzia de frangos vivos. Realidade que choca…

Recomendo. Muito…

Disponível no Prime Vídeo, da Amazon.

Artigo anteriorRadioactive
Próximo artigoMare of Easttown

FAÇA UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas Notícias

Tubocast #18

Neste episódio coversamos com o deputado estadual Goura.  Jorge Brand,...

Da história para os livros, dos livros para as telonas.

Era manhã do dia 25 de agosto de 1961, quando o então presidente Jânio Quadros renuncia ao cargo de presidente da República,...

Mare of Easttown

Quando o nome de Kate Winslet está associado a algum projeto, confesso que...

Cafarnaum

Dilacerante… Este seria o adjetivo, se tivesse que resumir em uma palavra o filme “Cafarnaum" da diretora...

Radioactive

Uma cinebiografia que aborda a história de uma mulher, cientista, primeira na história a vencer o Prêmio...
1,172FansLike
34FollowersFollow
302SubscribersSubscribe
Curitiba
nuvens quebradas
16.8 ° C
17 °
16.7 °
100 %
2.1kmh
75 %
sáb
25 °
dom
22 °
seg
28 °
ter
28 °
qua
26 °

Artigos Relacionados