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domingo, 09, maio, 2021 | 04:16:40 PM

Cuba e o cameraman

“O cineasta vencedor do Emmy Jon Alpert acompanha a trajetória de três famílias por quatro conturbadas décadas da história de Cuba.”

A sinopse que consta no início do documentário “Cuba e o Cameraman”, de 2017 e disponível no Netflix, não faz justiça ao conteúdo da obra. Afinal, a película vai muito além de acompanhar: envolve e emociona ao imprimir um tom intimista às histórias.  

Mérito de seu roteirista, cinegrafista e diretor, o jornalista americano Jon Alpert (ganhador de nada menos que 15 Emmys), que esteve na ilha inúmeras vezes de 1974 até 2016, ano da morte de Fidel Castro. A primeira visita aconteceu dez anos após a revolução cubana, quando o jovem Jon partiu de uma embarcação de Key West, na Flórida, rumo à Havana, com a intenção de registrar os efeitos de uma década de comunismo na vida das pessoas e do pequeno país vizinho. 

Estas incursões geraram centenas de horas de gravações, que resultaram em um registro excepcional da história de Cuba nos últimos cinquenta anos. Na tela, não há distanciamento analítico, nem tampouco juízo de valor. A forma como estas famílias vão sendo revisitadas ao longo das décadas por Jon, bem como a impressão que Cuba causa aos olhos de quem assiste, antes e depois da queda do Muro de Berlim – quando se encerram os subsídios milionários vindos da então URSS – são mostradas sem grandes intervenções editoriais.  

As esperanças, dores, frustrações, revoltas e perdas são quase sempre pronunciadas pela boca dos personagens. Jon “apenas” colhe tais sentimentos com sua câmera. Porém, mesmo em se tratando de um “ianque”, percebe-se o apreço que o jornalista possui pela figura de Fidel Castro. A recíproca soa verdadeira, também. 

Aliás, o documentário desconstruiu (para mim) a imagem que eu tinha de Fidel Castro. Mesmo nunca tendo crido que o comunismo comia “criancinhas”, sempre vi em Castro uma figura austera, de uniforme militar e charuto na mão 24×7. Pois o hábil cameraman consegue mostrar ao público um lado mais afável e bem-humorado do líder revolucionário. Sim, Fidel Castro sabia ser suave…  

Porém, se a figura de Castro surpreende, são as histórias dos personagens comuns que emocionam. Os quatro irmãos agricultores, trabalhadores rurais no mesmo ofício por mais de quatro décadas e sua alegria genuína vinda do canto, da bebida e da disputa de queda de braço; a menina que queria ser professora e que, revisitada dezesseis anos depois por Jon conta que abandonou a escola por ter se tornado mãe e anos mais tarde finalmente migra para a Flórida para fugir da escassez de alimentos e de “futuro”; o trabalhador que, após passar quatro anos preso por comprar e vender mercadorias no mercado negro, consegue empreender… 

Enfim, tendo estas vidas como pano de fundo, o documentário mostra a decadência sofrida pelo país – assolado pela escassez de comida, remédios, suprimentos e tecnologia -, até a saída encontrada no turismo para fomentar renda. Com esta narrativa, é possível ter uma visão esclarecedora das etapas da revolução.  

“Cuba e o Cameraman” tem quase duas horas de duração, as quais eu não senti passar. Escolha feliz de seu autor, que poderia tê-lo transformado em um apanhado político, histórico e econômico do pequeno país da América Central, mas que optou em tecer sua história através dos olhos e das experiências de quem lá vive(u). Não esconde as agruras, mas não aponta culpados e não demoniza ninguém. Ainda assim, informa, emociona e envolve. 

Neste sentido, o que temos na tela é um tributo à natureza humana: pessoas comuns, aguerridas, formidáveis e que enfrentam as agruras da vida com um sorriso no rosto e uma esperança quase irresponsável. Estas figuras são universais e independem de sistemas e regimes. Por isso, “Cuba e o Cameraman” é primoroso.

Recomendo… muito! 

PS: menção honrosa à trilha sonora. Espetacular….

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