16.8 C
Curitiba
quinta-feira, 21, janeiro, 2021 | 08:38:21 PM

Era uma vez um sonho

Um filme sob a direção de Ron Howard, que tem no elenco Amy Adams e Glenn Close e conta com o roteiro adaptado do best-seller autobiográfico “Hillbilly Elegy: A Memoir of a Family and Culture in Crisis”, é sucesso garantido, certo?

Infelizmente, não. Esperança do Netflix para o Oscar 2021, “Era Uma Vez um Sonho” foi alvo de duras críticas e já tem sido chamado por algumas publicações como “um dos piores filmes do ano’.

Mesmo assim, despi-me do preconceito instalado após tais leituras e lhe assisti, meio reticente e… bingo. De fato, o diretor Ron Howard e a roteirista Vanessa Taylor transpuseram para as telas uma história repleta de estereótipos e que deixou muito a desejar como produto final.

Afinal, o livro narra a vida de J.D. Vance e de sua família, que muito se assemelha ao cotidiano de milhares de outros americanos que vivem ou viveram nas mesmas condições. Além de ser um fenômeno de vendas, a obra pode ser encarada como um ensaio social sobre as condições que levaram à vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2016, justamente pelo contexto geográfico e econômico que a família está inserida. 

J. D. Vance cresceu na região denominada Cinturão da Ferrugem – área de concentração de operários de classe média nos Estados Unidos -, em meio a uma família desajustada: mãe viciada em drogas, avós inconstantes mas protetores, pobreza material e cultural e episódios recorrentes de violência. Mesmo neste ambiente adverso, Vance torna-se o primeiro membro de seu núcleo familiar a se formar em uma faculdade. O mérito ainda é maior pois trata-se do curso de Direito, na prestigiada Universidade de Yale.

Aspectos desta trajetória, que deveriam ter um olhar mais sensível das lentes – tais como o vício e os “surtos” da mãe, os vários padrastos que passaram pela sua vida, a falta de adequação à pompa que ronda os jantares elegantes de Yale – beiram o exagero sob o olhar de Howard.

Não há coerência nas atitudes dos personagens, visto que são todos superficiais, excessivos e elevados à potência do que os americanos chamam, pejorativamente, de “rednecks”. Falta contextualização dos motivos e razões para estas personalidades.

Porém, se na construção da narrativa falta sutileza, na caracterização dos atores, a competência impera. Vemos uma Amy Adams inspirada no papel desta mãe autodestrutiva e viciada em heroína. Cabelo e maquiagem ajudam a dar o tom de decadência e desleixo, porém, é o trabalho competente da atriz que entrega nuances e emoções precisas de uma dependente química. 

Glenn Close, que faz a vó protetora, é um show à parte. Suas expressões, tanto corporal como facial, são assustadoramente iguais à verdadeira “Mamaw”, conforme cenas dos créditos finais.

Discordo dos críticos no geral, pois não se trata de um dos piores filmes do ano, mas de um dos maiores desperdícios de matéria-prima do ano. Afinal, o filme poderia ter tido outra abordagem e tocar em uma ferida aberta da sociedade americana: a pobreza e a falta de mobilidade que  permeiam a classe operária branca. Com este mesmo argumento, um outro diretor talvez transformasse o livro no que ele realmente é: um lamento desta classe trabalhadora, que encontrou no discurso nacionalista de Trump a antítese da globalização. Como pano de fundo, a emocionante história de superação e ressignificações de J.D. Vance. Aguardemos o Oscar para ver se eu tenho razão, ou não.

Ainda assim, vale assistir, tanto pelas performances quanto pelas locações, repletas de fábricas abandonadas e olhares desolados…

====================================

Abaixo, um trecho do livro:

As nossas casas estão sempre numa desordem total. Gritamos e berramos uns com os outros como se fôssemos um bando de arruaceiros num jogo de futebol. Pelo menos um membro da nossa família, consome drogas – às vezes, o pai, às vezes a mãe, às vezes, os dois. Em momentos particularmente estressantes, batemos uns nos outros, e à frente do resto da família, inclusive das crianças pequenas; boa parte das vezes, os vizinhos ouvem o que está a acontecer. Um dia mau é quando os vizinhos chamam a polícia para acabar com a confusão. Os nossos filhos vão para um centro de acolhimento, mas nunca ficam por muito tempo. Pedimos-lhes desculpa. E eles acreditam que estamos realmente arrependidos, e é verdade. Mas o nosso comportamento volta ao mesmo poucos dias depois. Não estudamos quando crianças, e não fazemos com que os nossos filhos estudem quando somos pais.

FAÇA UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas Notícias

Carlos Augusto Moreira Jr. publica carta aberta ao Presidente Jair Bolsonaro

Hoje, 29 de abril o Dr. Carlos Augusto Moreira Jr., atual Diretor do Hospital de Olhos do Paraná, Secretário...

O retorno da Jedi: férias, livros, séries, Biarticulando 2021, o duque e, claro… Bridgerton

Findaram-se as férias desta que vos escreve, a mestre em Administração que preferiria ser Jedi. Foram dias...

O estabelecimento comercial pode cobrar preço diferenciado para as compras realizadas no cartão?

A diferenciação dos valores para as compras realizadas no cartão é uma prática bastante comum que já vem sendo adotada por vários...

O estabelecimento comercial pode exigir valor mínimo para compras no cartão?

As compras com cartão estão se popularizando cada vez mais nos últimos anos, existem pessoas que nem andam mais com dinheiro em...

Alimentos gravídicos

Os alimentos gravídicos são uma espécie de assistência que deve ser prestada pelo genitor para ajudar a cobrir as despesas adicionais do...
1,172FansLike
34FollowersFollow
301SubscribersSubscribe
Curitiba
nuvens quebradas
16.8 ° C
17 °
16.7 °
100 %
2.1kmh
75 %
sáb
25 °
dom
22 °
seg
28 °
ter
28 °
qua
26 °

Artigos Relacionados