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domingo, 09, maio, 2021 | 03:43:55 PM

Gabo

A coluna desta semana vai além da dica… beira o tributo. O documentário “Gabo – A criação de Gabriel García Márquez” – de 2015 e disponível há algum tempo no Netflix -, traz aspectos sobre a vida deste gênio colombiano, a.k.a. meu escritor favorito. A obra, dirigida por Justin Webster, mostra depoimentos do autor e de alguns amigos, colegas e fãs e revisita sua história, desde a infância pobre, passada na solar e caribenha Arataca, até a consagração mundial.

De fato, o documentário é muito feliz em mostrar como experiências e acontecimentos vividos na infância e juventude de Márquez se tornaram influência constante em toda a sua obra. Criado até os nove anos pelos avós, o autor encontrou no avô – militar, que conversava com ele como “gente grande” – a inspiração para “Ninguém escreve ao coronel”. E as histórias contadas pela avó – supersticiosa ao extremo e com medo de fantasmas – o ajudaram a criar o universo fantástico de seus livros e a inaugurar o estilo “realismo mágico”, que revolucionou a literatura latino-americana à época. 

Aliás, foi a morte do avô, quando Gabriel era ainda menino, o catalisador de duas das características mais marcantes de sua escrita: a solidão e a saudade. Este acontecimento também acabou por incutir nele o medo da morte, que nunca o abandonou. 

“Gabo – A criação de Gabriel García Márquez” também nos ensina que a surreal Macondo, descrita magnificamente naquele que eu entendo ser a maior obra-prima de sua carreira (e meu livro preferido da vida), “Cem anos de Solidão”, foi inspirada em Arataca. Aliás, foi este livro que alçou Márquez à fama mundial e à riqueza, visto que vendeu milhares de exemplares em uma época que as tiragens eram menores que mil. 

Compreendemos ainda que o amor de seus pais pode ser (re)conhecido através das páginas do belíssimo “O amor nos tempos do cólera”. Figura importantíssima na vida de Gabo, Mercedes, a esposa – que ele viu pela primeira vez aos quatorze anos, quando ela tinha nove -, também está presente em todos as obras, nominada em alguma personagem.  

Das páginas dos livros para a vida real, o documentário não se furta em abordar a controversa relação do autor com Fidel Castro, cuja amizade foi criticada por todos que viam excessos nas prisões ocorridas na ilha, na época. Outro ponto alto da obra do Netflix vem com a presença de outra figura política importante, porém situada no lado oposto do tabuleiro diplomático: Bill Clinton. Em seu depoimento, o ex-presidente americano não esconde sua admiração e amizade e narra com paixão o momento que descobriu “Cem Anos de Solidão”, ainda na faculdade. 

Anos mais tarde, o caminho de ambos se cruza novamente: Clinton na Casa Branca e García Márquez laureado pelo prêmio máximo almejado por um escritor: o Nobel de Literatura (vencido em 1974). Ocupou lugar de destaque nesta relação de admiração e respeito mútuos, o embargo americano à Cuba e as tentativas de ambos para  chegar a um acordo. 

O documentário também fala do dissabor de Márquez com a Colômbia dominada pelo narcotráfico – capitaneado por Pablo Escobar-, e que resultou na morte de inúmeros jornalistas e políticos, em uma época que o autor já não vivia no país. Aliás, este momento vergonhoso da história colombiana foi o responsável por trazer Gabo de volta à sua primeira paixão: o jornalismo. 

“Notícia de um sequestro” é um trabalho primoroso no qual Márquez entrega ao leitor um retrato cru e realista sobre o drama dos sequestros ocorridos na Colômbia na década de 90. Para tanto, ele realizou uma minuciosa pesquisa na qual coletou centenas de depoimentos. Já com 66 anos, o autor levou três anos para concluir o livro, cujo mote foi o relato dramático de um sequestro vivido por uma amiga pessoal. Passados aproximadamente 25 anos de seu lançamento, a obra continua a ser referência como livro-reportagem, transcendendo a conjuntura político social de uma das épocas mais conturbadas e sangrentas do país e perenizando os trágicos acontecimentos relatados nela.

Eu sou suspeita para falar de Gabriel García Márquez. Afinal, até hoje o tenho como meu escritor número um. Como li praticamente toda a sua obra ao longo de minha vida, reconheço muito do que o documentário mostra. Porém, a obra do Netflix possui o mérito de permitir que mesmo quem não conheça seu trabalho consiga enxergar sua genialidade.

Temas como vida, morte, paixão, traição – tratados ora de maneira trágica, ora de maneira mágica – são, acima de tudo, inerentes à condição humana e universal de finitude. Por isso, histórias que transcendem a realidade, com personagens que transitam entre os vivos e os mortos, possuem apelo em todos os cantos do mundo.

Márquez foi um gênio e como todos os gênios, pertence ao rol dos imortais. E “Gabo – A criação de Gabriel García Márquez” condensa esta trajetória fantástica de forma eficiente e emocionante.

Recomendo: o documentário e os livros. E se possível, comece por “Cem anos de solidão”. É transformador.

“MUITOS anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo.“ (trecho inicial de “Cem anos de solidão”)

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