16.8 C
Curitiba
quarta-feira, 03, março, 2021 | 11:57:10 AM

Mank

       Para os fãs de séries e filmes, não há época melhor que o início do ano, pois é quando as principais premiações acontecem. A temporada abre, tradicionalmente, com os indicados ao Globo de Ouro, prêmio entregue desde 1944 pela Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, que reúne votos de 93 membros e é considerado o maior prêmio da crítica, visto que o Emmy e o Oscar são concedidos através da escolha dos respectivos pares.

       Seguindo então a tradição, na última quarta-feira, dia 03, Sarah Jessica Parker e Taraji P. Henson apresentaram os concorrentes em cada categoria do Golden Globe. A esperada lista veio com nomes muito interessantes e sacramentou o poder e alcance dos serviços de streaming. O Netflix recebeu 22 indicações nas categorias de filmes e 20 de TV, seguido pela Amazon, que emplacou sete indicações em filmes. A HBO recebeu o mesmo número de indicações em TV.

        Para provar meu ponto, cito uma das categorias de maior prestígio do prêmio, “Melhor Filme – Drama” (diferente do Oscar, o Globo de Ouro divide a categoria em duas: Drama e Musical ou Comédia). Dos cinco filmes indicados, três ainda não estrearam no cinema e dois são do Netflix: “Os 7 de Chicago” (já havia visto quando lançou e achei muito bom) e “Mank”, disponibilizado pelo streaming em meados de dezembro e ainda não visto por mim até então por motivos de… ser meados de dezembro.

        Então tive dois dias para corrigir isso e assistir ao filme com maior número de indicações do prêmio e entender, afinal, o que “Mank” tem.

        E quer saber??? Tem motivo de sobra para ostentar seis indicações. A sinopse é concisa, porém já promete: O enredo de Mank segue a história tumultuosa do roteirista Herman J. Mankiewicz da obra-prima icônica de Orson Welles, Cidadão Kane (1941) e sua luta com o autor Orson Welles pelo crédito do script do grandioso longa. E a ficha técnica dá a letra do naipe dos envolvidos: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Arliss Howard, Tom Pelphrey, Sam Troughton, Ferdinand Kingsley, Tuppence Middleton, Tom Burke, Joseph Cross. Todos sob a direção de David Fincher (de Garota Exemplar, Mindhunter e A Rede Social, entre outros).

       Filmado em preto e branco, fica claro no roteiro de Jack Fincher (pai do diretor, falecido em 2003), que David tentou buscar reparação histórica através deste filme. Afinal, a história é baseada na vida de Herman J. Mankiewicz – interpretado por Gary Oldman (de quem teço considerações na sequência) -, um nome pouco citado hoje, mas que foi peça importante na história do cinema. Afinal, ele foi co-roteirista de “Cidadão Kane” (1941), a revolucionária obra de Orson Welles, que até hoje é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos.

       Porém, não se trata de uma obra sobre os bastidores de “Cidadão Kane”, tampouco sobre seu genial diretor, que, além de pouco aparecer na tela e ganhar relevância lá perto do final, ainda é retratado de forma pouco amena. O que vemos na tela é a jornada pessoal de Mankiewicz, o Mank, um roteirista sarcástico e beberrão que, cansado das alianças políticas e das pessoas poderosas com agendas próprias que permearam Hollywood nas suas primeiras décadas, resolve “dar o troco”. Decide então fazer um filme sobre o poderoso magnata da imprensa, de quem já foi amigo, William Randolph Hearst. Nascia aí o argumento de “Cidadão Kane”.

       Com roteiro inteligente, diálogos afiados (o ponto alto, na minha opinião), elenco competente e alguns planos que remetem à “Cidadão Kane”, “Mank” é ótimo. Porém, é óbvio que se torna mais inteligível para quem já viu “Cidadão Kane” (eu!) ou estudou sobre (eu também… nos idos dos anos 90, na disciplina de Cinema, na faculdade. Ai se você não soubesse no final da matéria o significado de Rosebud. A professora não perdoava).

       É justamente neste ponto que as críticas negativas têm convergido… de que Fincher fez um filme para um clubinho restrito. Acho exagerado este apontamento, mas concordo que assistir à obra de Welles (que tinha 24 anos e nenhuma experiência pregressa quando o dirigiu!) antes de ver “Mank” pode ajudar, bem como se inteirar na internet sobre os bastidores e as “tretas” que rolaram durante as filmagens do clássico.

       Feita tal observação, digo que é possível assistir à obra dos Finchers sem informação prévia e ainda assim curtir saber como foi o nascimento de uma das maiores obras-primas do cinema, além de acompanhar a busca deste roteirista pelo reconhecimento de ser parte integrante dela. Os flashbacks atrasam um pouco a fluidez da história, mas é possível reconhecer ali uma escolha que remete ao clássico original, que tem no formato não linear uma de suas características mais famosas.

       O filme é bom e merece o destaque que está recebendo. Se você não for amante do cinema desde sua origem, vá por Gary Oldman, impecável e digno de levar novos prêmios ao interpretar figuras reais (já “esqueceste” do trabalho fenomenal ao viver Churchill em “O Destino de uma Nação”?). Agora, se você for cinéfilo de carteirinha, vá pelo tributo à Era de Ouro do cinema e fique por Oldman e pelo projeto pessoal dos Finchers. Em qualquer perspectiva, “Mank” surpreende. E merece ser visto…

Ainda não sabemos o desempenho do filme ao longo da temporada de prêmios, mas particularmente, pressinto Oscar. A Academia ama se ver, sob qualquer perspectiva. Ela é a síntese da máxima, “falem bem ou falem mal, mas falem de mim…”.

Aguardemos.

FAÇA UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas Notícias

Primeiro Festival Turma Boa

Dia 22 de agosto, sábado próximo, ocorrerá o Festival Turma Boa - Música & Projeto Nacional, que será transmitido...

A escavação

Em 1926, um aristocrático casal inglês, Frank e Edith Pretty, adquiriu uma propriedade rural com estranhas formações...

O tigre branco

Com delay de 72 horas, o texto desta semana sai na segunda, por motivos de agenda e...

Filho feio não tem pai

Liberais ignoram a realidade para não se responsabilizarem pelo nosso desastre econômico Recentemente, a economista Zeina Latif publicou um...

Realidade Imposta: as revelações trazidas à tona pela pandemia.

A pandemia do novo coronavírus, que já vitimou mais de 230 mil brasileiras e brasileiros, escancarou diversas facetas outrora não percebidas ou...
1,172FansLike
34FollowersFollow
300SubscribersSubscribe
Curitiba
nuvens quebradas
16.8 ° C
17 °
16.7 °
100 %
2.1kmh
75 %
sáb
25 °
dom
22 °
seg
28 °
ter
28 °
qua
26 °

Artigos Relacionados