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domingo, 09, maio, 2021 | 04:46:31 PM

O tigre branco

Com delay de 72 horas, o texto desta semana sai na segunda, por motivos de agenda e compromissos novos assumidos na última sexta-feira versus o dia continuar com 24 horas (cadê a dilatação temporal mostrada por Einstein em 1905, gente?). Inclusive, foi neste mesmo dia corrido que esta modesta coluna estreou eletronicamente na TV Democracia. A convite de seu idealizador, Fábio Pannunzio – que, além de jornalista renomado, desafeto do grão-vizir da cloroquina, defensor dos preceitos do Iluminismo e da liberdade de expressão,  é meu amigo – estarei todas as sextas falando sobre alguma série ou filme que vi, no mesmo molde do que faço por aqui. Aliás, prometo que vou melhorar a iluminação por lá… 

Então que o filme escolhido foi o indiano “O Tigre Branco”. Se você não me assistiu ainda (vacilo seu e modéstia minha, hein??! Kkk) discorrerei aqui (hoje estou erudita!) sobre a trama. Disponível no Netflix, com duração de duas horas e sete minutos, esta película indiana merece todas as notas positivas que tem colhido desde a estreia no streaming (92% no Rotten Tomatoes e 7,2 no IMDb), há um mês. 

Adaptado do livro de Aravind Adiga – um dos três autores a vencer o importante prêmio literário de língua inglesa The Man Booker com um livro de estreia (justamente “O Tigre Branco”) -, com roteiro e direção de  Ramin Bahrani, o filme é explosivo, dinâmico, real e inteligente. Além disso, dá um gancho de direita no capitalismo e no sistema de castas indiano. 

Afinal, ele narra as desventuras de Balram Halwai, um rapaz pobre nascido em uma casta de fazedores de doce na zona rural indiana e que enxerga no cargo de motorista da família rica e sem caráter da vila a chance de ascender (oi?) da miséria e falta de perspectivas do lugar. Narrado em três tempos, o filme começa com nosso anti-herói envolvido em uma situação que provavelmente vai dar errado (e dá!) ao lado do filho de seu patrão, Ashok (Rajkummar Rao) e sua esposa Pinky (a bela e hypada Priyanka Chopra, esposa de um e cunhada dos outros dois brothers da família Jonas), que recém retornaram dos Estados Unidos e ostentam um verniz (fino e mal aplicado) de civilidade contra os costumes atrozes da sociedade local em relação aos seus subordinados.  

Enfim… a “treta” acontece e o filme tem um corte temporal, que mescla cenas de um  Balram  que provavelmente “chegou lá” (ele está engomadinho, limpo, com pinta de “patrão”), com imagens de sua infância miserável em uma família comandada por sua avó, após o falecimento de seu pai.  

Ao longo dessas duas horas e pouco o incômodo permanece: pela injustiça social, pela falta de mobilidade do país, pela subserviência extremada do protagonista, pela corrupção que assola a política e pela sensação de desalento. Balram é desprezível, mas conseguimos entender as razões dele ser assim… quase que fica possível justificar as escolhas questionáveis e sem ética alguma. Parafraseando o Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, a culpa é do “sistema”.  

O próprio título do filme remete à uma aberração genética que acontece no mundo animal. O tigre de cor branca é algo tão raro que ocorre uma vez a cada geração, assim como o indiano que nasce pobre, nas castas inferiores e ascende. É o caso de nosso protagonista. “O Tigre Branco” é daquelas produções que dão certo por muitas razões: roteiro, montagem, fotografia. Porém,  é preciso salientar aqui a interpretação consistente de Adarsh Gourav, que vive um Balram resignado porém ambicioso, de gestos econômicos mas de ideias e planos gigantes e acima de tudo, que causa empatia na audiência. Não me espantaria uma indicação ao Oscar para ele. 

Produto bom e com roupagem made in Bollywood, lógico que geraria comparação com outro expoente do cinema falado em hindi: “Quem quer ser um Milionário?”, vencedor do Oscar de melhor filme de 2009, sob a direção de Danny Boyle. Ciente disso, Bahrani, de forma inteligente, lá pelas tantas da história, insere a seguinte frase no roteiro: “Eu estou preso no galinheiro, e não há nenhum programa de perguntas e respostas para me deixar milionário.” 

Ou seja, “O Tigre Branco” se coloca como a antítese da obra de Boyle. E isso só acrescenta qualidade e crueza a ele. Não se percebe o tempo passar, pois o que queremos é saber como nosso personagem título chegou lá. Mérito do roteiro de Bahrani, que inseriu humor na medida para contar uma história ácida e – por que não? – trágica. Afinal, na Índia você tem que nascer na casta correta ou recorrer a todas as artimanhas vividas ou narradas por nosso protagonista comprometido em vencer.

Eu gostei demais… Foco nos momentos finais da película, onde ele fala sobre a decadência do homem branco e a ascensão dos amarelos e marrons. É provocativo, porém profético. 

Recomendo… muito. 

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