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quarta-feira, 03, março, 2021 | 10:52:04 AM

Pieces of a Woman

(Alerta de gatilho: este texto aborda conteúdo sobre perda gestacional e luto materno.)

Luto materno é sempre assunto espinhoso. Portanto, deveras difícil de ser abordado na tela com a precisão de sentimentos que se exige dele. Ora tange a  superficialidade, ora resvala na pieguice.

É preciso sutileza: no roteiro, na direção e na interpretação dos atores para dar à cena a carga emotiva exata a ponto de emocionar e doer, na mesma medida. Afinal, só quem já entrou em um centro obstétrico grávida e saiu dele sem um filho nos braços sabe mensurar que dor é esta. Não há final feliz neste enredo.

Por isso, “aplaudo de pé” a película “Pieces of a Woman”, disponível no Netflix. Sua sinopse resume a história: “Martha (Vanessa Kirby) e Sean (Shia LaBeouf) são um casal de Boston prestes a serem pais, mas suas vidas mudam irrevogavelmente quando um parto em casa termina em uma tragédia inimaginável. Assim começa uma odisseia de um ano para Martha, que precisa passar por todo esse sofrimento enquanto enfrenta os relacionamentos turbulentos com Sean e sua mãe dominadora (Ellen Burstyn), e ainda enfrenta a parteira (Molly Parker) nos tribunais”. 

Com produção executiva de Martin Scorcese, direção do húngaro Kornél Mundruczó e roteiro de Kata Wéber, sua esposa, “Pieces of a Woman” é de uma crueza tão grande que chega a incomodar. Afinal, a cena do trágico parto domiciliar dura 24 minutos em plano sequência, sem cortes ou edições. Neste processo, nem sei como adjetivar o estupendo trabalho da atriz Vanessa Kirby (que você provavelmente não associará, mas interpretou a princesa Margaret na primeira fase de The Crown, também do Netflix), como Martha, a “mulher em pedaços” do título. A expressão corporal, a respiração, a voz, os olhares, as pausas, o silêncio, a dor e o sofrimento. É tudo demasiado humano e visceral. Sua performance é simplesmente sensacional.

Também não decepcionam na interpretação Shia LaBeouf, no papel do marido – que passa por uma transformação de personalidade como forma de tentar lidar com sua dor – e Ellen Burstyn, no papel da mãe de Martha, Elisabeth – uma mulher forte e sobrevivente do Holocausto, que não esconde a falta de apreço pelo genro e que não possui escuta para os anseios da filha. O sumiço de LaBeouf na publicidade da película tem motivo: ele se envolveu (e se declarou culpado) em um processo por agressão e assédio sexual,  movido pela sua ex-namorada,  a cantora britânica FKA Twigs, em dezembro de 2020. Por isso, teve sua imagem removida da campanha de divulgação do filme.

A forma como estas pessoas lidam com a dor da perda dá a tônica da história. Relacionamentos que ruem, sentimentos  varridos para debaixo do tapete, sede insana de justiça, silêncios que incomodam… e o mundo lá fora? Continua a girar, imune e indiferente à tamanha tragédia familiar.

Em entrevistas dadas após o lançamento, a roteirista Kata Wéber disse que o argumento do filme surgiu de uma experiência pessoal do casal. “Para nós, é uma história muito importante, porque sofremos com um aborto. Não foi nada parecido com o de Martha. Mas o filme se tornou um meio de falarmos sobre esse assunto que não teríamos abordado mesmo entre nós”. Ela conta que Kornél encontrou suas anotações, que na verdade “eram algumas linhas de diálogo perdidas. Ele me encorajou a transformar em um roteiro, então foi um projeto muito compartilhado desde o início”.

O diretor afirma que o filme teve um papel terapêutico, pois trouxe à luz a dor velada e inaudível que sentem estes pais. Segundo ele, foi impressionante quantas pessoas os buscaram para contar suas histórias. “Foi então que eu entendi que não estávamos sozinhos. Foi chocante quanta gente nos procurou. É um tabu ainda”, disse Kornél. 

O filme assinado pelo casal Kornél e Kata pertence àquela categoria que “não acaba quando termina”, pois possui função catártica. Traz introspecção e reflexão à audiência, visto que a gama de sentimentos envolvidos é enorme e a morte ainda é um grande tabu.

Realmente, uma obra memorável. Já rendeu à Vanessa Kirby o merecido prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza, e agora mira o Oscar. De fato, não será surpresa a indicação dela e/ou de Ellen Burstyn, ou até do roteiro ou direção. Trata-se de um trabalho primoroso.

Recomendo… muito.

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