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Postura do atual governo brasileiro frente à COVID-19: Ambiguidade como aposta de salvação | Luis Molossi

Quem nunca ouviu falar daquela célebre história do médico, que cobrava uma pequena fortuna de suas pacientes, dizendo que adivinharia o sexo dos seus bebês? Ajustado tudo, ele dizia que era menino, mas escrevia na ficha clínica da mãe, menina. Se a adivinhação desse certo a mãe jamais iria reclamar. Porém, caso errasse e a cliente viesse reclamar do erro e cobrar de volta o seu dinheiro, ele simplesmente mostraria a ficha e o resultado escrito. E quem poderia duvidar?

A postura do Presidente frente à Covid-19, mais conhecido como Coronavírus, percebida nas últimas semanas quando a pandemia chegou ao Brasil, com o primeiro contágio confirmado em 26/02/2020 e a primeira morte, em 17/03/2020, tem sido esta: ele defende o modelo neoliberal, dos grupos empresariais e setores corporativistas que o apoiaram e querem a livre circulação de pessoas, toda a atividade econômica funcionando normalmente, para não quebrar nenhuma empresa, justificando que o risco é pequeno para os trabalhadores, que a doença atinge apenas uma parcela muito pequena da população, especialmente os mais velhos e que alguma quota de sacrifício em mortes é inevitável. A lógica é que morrem alguns milhares, mas garante a salvação da economia e os amigos que o ajudaram na eleição. E a reeleição…

Da outra parte, capitaneado pelo Ministro da Saúde, Mandetta e toda sua equipe, bem como especialistas e quase todo o sistema de saúde do Brasil, entende que só tem eficácia o isolamento social, com o fechamento total das atividades não essenciais, permitindo o controle da contaminação, mais lenta e menos agressiva, “achatando a montanha” do contágio, dando tempo e condições de tratamento, com o percentual de vítimas fatais muito menor, diante do bloqueio da transmissão, justamente pela ausência das pessoas próximas umas das outras. Esta é, inclusive, a estratégia de enfrentamento indicada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), não usada na Itália no início da crise, mas pouco mais de um mês depois, quando o vírus já havia contaminado dezenas de milhares de pessoas, com milhares de óbitos. E já tarde demais.

O Governo Brasileiro está agindo, ao menos até o momento, espelhado no seu grande inspirador, até mesmo na forma de eleição, como um Sub-Trump, empurrando o custo das medidas necessárias para combater o avanço do vírus, esperando que a evolução não seja aquela que os alarmistas – segundo o próprio presidente – estão prevendo e alertando há semanas, desde que começou o contágio no Brasil. Tudo não passará de uma “gripezinha”, de um “resfriado” para a maioria da população, jovem e sadia, diz. Exatamente como ele próprio, perigosa e irresponsavelmente se considera, devido ao seu passado de “atleta”, como já indicou mais de uma vez. Todavia, por ter dezenas de membros de sua equipe de trabalho e até viagem para o EUA contaminados, suspeita-se que também esteja, o que é negado pelo mesmo, embora nunca tenha mostrado os resultados dos 2 exames a que se submeteu.

Na verdade, é apenas uma torcida, uma tacanha aposta no achismo, porque os fundamentos técnicos das autoridades da saúde indicam exatamente o contrário do que acredita o presidente. Então, se a postura do presidente estiver certa, com a opção por ele defendida oficialmente, até em pronunciamento em rede nacional de rádio e TV, em 24/03/2020, e a livre circulação de pessoas e manutenção da atividade econômica não trouxer maiores consequências econômicas, ninguém questionaria a postura do presidente e a resposta dada por ele na consulta – MENINO – não teria contestações. E isso até lhe traria muita simpatia, porque menina não era exatamente desejada, como disse mais de uma vez em sua campanha eleitoral, pois seria resultado de uma sua “fraquejada”.

Porém, ao que tudo indica, mesmo contrariando a vontade do presidente e de seus aliados, deverá prevalecer a postura determinada pelo Ministério da Saúde, porque assim entendem os especialistas da área da saúde e infectologia brasileiros – inclusive por todas as demais nações afetadas – ser a forma correta de agir nesta situação, causando enormes e irreparáveis prejuízos econômicos, mas salvando muito mais pessoas da morte. Assim sendo, ao final do período da crise, ao chegarem ao presidente para cobrar o resultado de suas malfadadas previsões, eles dirão que pagaram para terem a resposta menino e saiu uma menina. Como dissemos no início da história, o Presidente puxará a ficha e dirá: mas está escrito MENINA! Ou seja, estará protegido o adivinho pela sua astúcia, por um discurso ambíguo como forma de manter o poder, aconteça o que for.

A aposta é gigantesca e o seu resultado está intimamente ligado ao objetivo máximo de cada governante, ou seja, salvar o próprio mandato político e garantir a reeleição, logo ali adiante. Façamos as nossas análises e poderemos cravar: Menino ou Menina?

“Se esta crise tiver efeito colateral a corrosão, a destruição e a redução a pó dessa direita populista, ela não terá sido totalmente perdida. Lideranças desse tipo colocam em risco a humanidade”  sentencia o economista e filósofo Eduardo Gianetti, em entrevista para a Folha de São Paulo, em 23/03/2020.

O que está em jogo no Brasil, com estrutura hospitalar deficiente, poucos leitos e equipamentos adequados ao eventual grande contingente de doentes, é a morte quase certa dos infectados que não puderem ser adequadamente atendidos. O isolamento tem por objetivo reduzir a velocidade do contágio e permitir atendimento a quase todos os doentes, o que seria impraticável com a onda incontrolável de transmissão do vírus se as pessoas permanecerem nas ruas, praças, no trabalho e nas incontáveis atividades normais tão necessárias sim à economia.

Esquecem-se os donos do capital, que o trabalho é feito de pessoas e estas, como parte vital da atividade econômica, também tem sua parcela de direitos, porque cada cidadão, em toda a sua vida economicamente ativa, também paga impostos para ter habitação, segurança a atendimento à saúde. Ou seja, tem direito à PRESERVAÇÃO DE SUA VIDA. Nada lhes é gratuito, mesmo quando atendidos pelo SUS, pois são os impostos que mantém o sistema.

Os políticos são eleitos pelos pagadores de impostos, justamente para que, no momento que seja necessário, gastar os recursos do Estado, haja prioridade na preservação da vida, bem maior de todos nós. A economia é MEIO para a sociedade, a vida é o verdadeiro FIM. Não o contrário. Já que os Eua são o espelho para o Sub-Trump, uma “gripezinha” não faria o estado liberar 2 trilhões de dólares para evitar a recessão, bem como o discurso de “isolation” já é ouvido hoje (26/03/20), ao contrário de dias atrás, de modo que pode ser imitado sim, sem medo de mudar de ideia, coisa até muito frequente no caso brasileiro recente, diga-se de passagem.

A nação é como a vida humana: para cada fase há um custo, para os primeiros anos, para a formação profissional e pessoal e, na maturidade, a renda que sempre resultou em impostos, as propriedades acumuladas que rendem impostos, o consumo que rende impostos e, na velhice, o custo da saúde, da aposentadoria e todo o sistema financeiro alimentado. O Estado tem todos os mecanismos para adequar esta dinâmica e, quando necessário, como é o caso de uma pandemia, poder socorrer os seus contribuintes, até que eles possam voltar a pagar – novamente – os impostos. É preciso salvar a vida do povo, custe o que custar! E ter uma liderança política preparada e consciente disso, porque escolhida e devidamente paga para tal. E que esteja à altura do cargo. Apenas isso!

Luis Molossi – 26 de março de 2020

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