“Nada Ortodoxa” e como (ainda) precisamos falar de gênero

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Um casamento arranjado e infeliz. Uma mulher oprimida pelo contexto e com pouquíssimos recursos para se libertar dele. O desejo sufocado de fugir disso tudo…

Infelizmente, este argumento é universal e transpassa idiomas, culturas e costumes. O único ponto em comum é o gênero. A série “Nada Ortodoxa”, que estreou em março, no Netflix, está aí para provar.

Ela narra a história de Esther, membro de uma seita judaica ultra ortodoxa denominada Satma, e que foi fundada por sobreviventes do Holocausto em uma região do Brooklyn, em Nova York. Entre as restrições, seus membros se comunicam apenas em iídiche, usam celulares kosher (são proibidos smartphones), as mulheres não estudam nem trabalham e todos os casais possuem a missão de compensar as mortes de judeus que ocorreram na Segunda Guerra Mundial tendo o máximo possível de filhos.

A princípio, este universo tão distante do nosso ganha proximidade real quando nos empatizamos com a protagonista totalmente deslocada neste local, alternando a busca pela fuga com a culpa que sente por não estar correspondendo ao que seu Deus espera dela.

Enfim, ajudada por uma professora de piano, Esther foge para Berlim e deixa nos EUA seu marido arranjado uma família que o domina, como parte desta cultura.

Baseado no livro de memórias de Deborah Feldman e com duração de apenas quatro episódios, “Nada Ortodoxa” nos faz mergulhar nas descobertas desta judia deste mundo alemão tão cheio de música, possibilidades e luz, ao mesmo tempo que narra a jornada de seu marido Yakov e de seu primo Moishe para trazê-la de volta.

Algumas soluções e coincidências do roteiro são “fáceis” demais, mas nada disso compromete o desejo de continuar assistindo a saga desta jovem mulher. É possível se “pegar” torcendo pela sua libertação e desejando todo tempo que, caso aconteça o reencontro com o marido, ela consiga se impor e tomar a melhor decisão para sua vida, sem se sentir oprimida.

Mais que passatempo ou mergulho na cultura judaica ortodoxa (muito interessante, aliás), a série ecoa como um manifesto feminista. Afinal, estamos no século XXI e ainda testemunhamos mulheres que vivem ao lado da cosmopolita Manhattan sem formação ou profissão, oprimidas por culturas rígidas, e tendo seus destinos traçados por terceiros apenas por pertencerem ao gênero feminino. É chocante assistir, que para alcançar a liberdade, é preciso cruzar o Atlântico.

Pelo que pesquisei, até o momento a série não foi renovada, nem conta com segunda temporada. Mas talvez isso mude… Adoraria, pois anseio assistir à continuação da história de Esther. É como se eu torcesse pela personagem, no melhor sentido na palavra. Apesar de, na essência, ser uma história de ficção, rola uma sororidade com o tema. É algo que as mulheres vão entender, ao assistir…

Ainda assim, recomendo a todos. Se você é homem, é privilegiado sim… Veja e comprove.

PS: Deborah Feldmann, a verdadeira Esther, “foi, viu e venceu”. Afinal, possui uma história fabulosa e de superação através da escrita. Para quem não liga para spoilers, vale a leitura desta matéria do NY Times, de janeiro de 2018,  traduzida e publicada pelo Zero Hora:

https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/noticia/2018/01/a-escritora-que-descobriu-sua-voz-em-alemao-atraves-do-iidiche-cjbzawpah002c01p5aw9gfhi2.html

 

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