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O grande desafio

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Reindustrializar o país será a tarefa de nosso tempo

Está se formando, ainda timidamente, um consenso de que a desindustrialização é um problema para nosso país e que é necessário reverter esse processo. Um recente editorial do jornal O Estado de São Paulo vai nessa linha, por exemplo. Este é um importante avanço, considerando que até pouco tempo atrás era pouco aceita a ideia de que estamos sofrendo um processo de desindustrialização.

Desenvolvimentistas e liberais discutem qual seria a importância da indústria em nosso país desde a primeira metade do século XX. Principalmente nos últimos 30 anos, os liberais têm levado vantagem acerca dessa questão no debate público. Para os liberais, o desenvolvimento de um país é setor-neutro. Em outras palavras: tanto faz se produzimos soja ou microchips, o que importa é sermos bons no que fazemos. Já para os desenvolvimentistas, existem produtos e produtos. O desenvolvimento de um país é condicionado, em grande parte, pelo tipo de produto que se é capaz de fazer.

Quem está certo nessa celeuma? Provavelmente nunca teremos uma resposta definitiva para essa questão mas, com base em nossa própria experiência histórica e em avanços recentes da economia, podemos ter pistas.

Em primeiro lugar, a história de nosso desenvolvimento econômico se confunde com a história de nosso processo de industrialização. Iniciamos o século XX como um país agrário e atrasado. Principalmente a partir da década de 30, nossa industrialização se acelerou e esse movimento permaneceu até a década 70. Desde a década de 80, porém, nossa indústria vem perdendo importância relativa de maneira acentuada. Concomitantemente a esse processo, o nível de crescimento per capita que nossa economia consegue alcançar parece ter se reduzido estruturalmente.

Fonte: Morceiro, P.C. (2019) e IBRE-FGV

O gráfico acima conta parte dessa história. Partindo de um patamar de 16,5% de participação no PIB para a indústria de transformação em 1947, essa parcela se expandiu de maneira contínua até atingir um pico de 27,3% em 1986. A partir de então, a indústria passou a ter uma importância cada vez menor em nossa economia, diminuindo de tamanho relativo ano após ano. Vale notar que hoje a participação da indústria no nosso produto total é a menor da série histórica, alcançando apenas 11,3%.

Podemos observar que o crescimento acumulado do PIB per capita em 10 anos tem uma trajetória semelhante. Há uma tendência de aumento nesse número até um pico de 92,1% em 1977. De 1981 em diante, no entanto, esse número foi reduzido de maneira drástica e permaneceu em patamares relativamente baixos. Mesmo o pico verificado em 2013 está bem abaixo dos valores médios registrados entre 1947 e 1980. Atualmente estamos no ponto mais baixo já verificado para esse número. Entre 2011 e 2020, nossa renda per capita caiu 6,1%. Ou seja, ficamos 6,1% mais pobres depois desses 10 anos. A década que acabamos de atravessar foi a mais perdida da história.

Além das pistas que a nossa própria história econômica nos dá, recentes avanços da economia indicam que sim, faz diferença lavar pratos ou programar softwares. O Índice de Complexidade Econômica é um número que busca captar o nível de desenvolvimento tecnológico de um país. O índice é calculado a partir da diversidade e não-ubiquidade (raridade) dos produtos que compõem a pauta exportadora de cada país. Quanto mais diversa for essa pauta e quanto mais raros forem os bens que a compõem, mais complexo será esse país.

Fonte: Atlas da Complexidade Econômica e Banco Mundial

Como pode-se ver no gráfico acima, há uma relação entre a complexidade (eixo horizontal) e o nível de renda per capita por paridade de poder de compra (eixo vertical). Claro, há alguns pontos fora da curva, explicados principalmente por diferenças na dotação de recursos naturais. Notoriamente esse é o caso de alguns países abundantes em petróleo, como o Catar e os Emirados Árabes Unidos, que são ricos mesmo tendo uma estrutura produtiva pobre. Trabalhos acadêmicos também relacionam uma maior complexidade econômica a uma menor desigualdade de renda e menor emissão de gases poluentes. Ou seja, a industrialização (captada indiretamente pelo índice de complexidade econômica) ajuda na resolução de vários problemas econômicos que enfrentamos.

Obviamente, existem atividades não-industriais que também podem ser classificadas como “complexas”, principalmente serviços envolvendo engenharia e tecnologia da informação. Também existem atividades industriais de baixa densidade tecnológica, logo de baixa complexidade, como partes da indústria têxtil e alimentícia. Tudo isso não apaga o fato de que a maioria das atividades econômicas consideradas complexas estão concentradas na indústria.

Considerando essas evidências, é preocupante que nosso país venha, cada vez mais, se especializando em produtos primários e pouco complexos como soja, minério de ferro, petróleo, açúcar, carne, entre outros. Em 1999, éramos o vigésimo sexto país mais complexo em termos econômicos do mundo. Hoje, ocupamos apenas a quadragésima nona colocação. Se não interrompermos esse declínio, estaremos cada vez mais longe do país próspero e igualitário que sonhamos.

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